segunda-feira, 27 de fevereiro de 2012


Hoje está tão frio, me sinto tão só.
O vento aqui fora balança e bagunça meus cabelos, me faz tremer. Não me importo com o frio. Me faz me sentir pelo menos um pouco viva. Entro, abro o chuveiro, me dispo. A água quente arde dolorosamente sobre a minha pele gelada. Já não me importo com a dor. Em minhas costas, em meus pulsos estão as marcas de meu sofrimento. Uma parte dele. O pior está por dentr
o, os por fora podem cicatrizar. Talvez eu não estivesse assim. Isso é culpa sua... Se tu estivesse aqui, talvez não tivesse nenhuma marca em minhas costas, nem um arranhão nos meus pulsos... Meu coração talvez estivesse inteiro.
Meu corpo aos poucos se acostuma com a dor, com o calor, e vai se esquentando. Mas minha mente, minha alma viaja na neve. Não me culpe. Tento esquentá-la, levá-la para o sol, mas ela insiste em ficar. Aprendi a não me importar com minha própria alma. Mas isso eu nem me lembro mais quando foi. Aprendi a sobreviver sem viver, conviver com a falta até não notá-la mais. Aprendi a ser indiscreta, inconstante, indiferente a tudo.
Minha vida parece ser infinita. Não que seja velha, não isso. Mas parece que nunca vai acabar... A dor, o vazio, o torpor fazem parecer que as horas duram dias e os dias meses. Os anos, eu nem comento. As pessoas comentavam, perguntavam o que havia acontecido, e eu usava as mesmas desculpas que eles. A diferença era que eles sabiam disfarçar. Ah, nada, é sono; cansaço; dor de amor. Diziam: espere a hora certa, quando tu menos esperar vai melhorar, não fique assim. Porra, quem estava sentindo não era eu? Deixe-me fazer a única coisa que me restava a fazer: sofrer. Depois de algumas semanas perguntando, se cansaram, e, como eu, esqueceram-se ou acostumaram-se.
Desligo o chuveiro, coloco uma roupa. Faço uma sopa bem quente que vá me esquentar até o fim da noite. Não que eu acho que vá adiantar, o vento parece me chamar para o frio. 

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